quinta-feira, 14 de junho de 2018

É , gente, o dia ainda não clareou, a  chuva está fazendo barulho lá fora, o frio passa por baixo da porta, mas as idéias me vieram e me obrigaram à  levantar.
 Levantar pra escrever, como se fosse uma visita que estava  chegando à porta e eu tinha  que atender ...
Não tem como...dormir eu não ia mais!
 Tudo isso pra contar pra quem quiser ler, como foi o meu dia ontem na minha cirurgia.
Enquanto também estava escuro , nos levantamos(eu em jejum ),seguimos para  o hospital , retirar um tal caranguejo que estava querendo se apossar do meu rosto.
Desde que acordei , já fui falando pro Veiga, quero ir por tal caminho, porque sempre que saímos do sitio discordamos da rota a tomar. Ele sempre quer ir pelo caminho menos  usado mas mais longo e eu pelo centro .Desta vez ele cedeu fácil e fomos pela minha escolha. Num instantinho estávamos lá ...uma meia hora só.
Chegamos , nos apresentamos ...eu e meu companheiro das horas boas e más.Ele achando que eu estava nervosa e eu dizendo que estava mesmo...curiosa. Como não rezo , e não tenho afinidades  religiosas , deixei essa parte para  a grande  maioria de amigos e parentes que rezam e torcem por mim...quem se incluir nessa parte , me desculpe , mas saiba que agradeço muito ,não "por vocês" e sim... agradeço diretamente à todos vocês por me darem o privilegio de me incluírem em suas orações e momentos de fé.De certa forma invejo essa atitude... mas não posso fazer diferente, sou assim..
Mas voltando ao assunto, logo começou a espera. Encontrei no corredor as mesmas pessoas que havia visto anteontem na consulta com o anestesista.Só que agora cada  um estava com seu par. Par de ajuda física ou  emocional.
Esperamos ... e quando fui chamada, prá variar...estava fazendo xixi.
Subi as escadarias num galope , o coração chegou no tum tum tum...
Novamente espera.
De todos os chamados , fui a ultima a entrar para retirar as roupas e colocá-las numa sacola de papel e vestir aquele camisolão . touca e pantufas.Aquele mesmo camisolão que as pessoas não sabem como fechá-lo e deixam a bunda à mostra quando se levantam.
 Vou ensinar pra vocês: Primeiro veste-se com o aberto para trás, depois amarra por dentro no lado da cintura, e por fim ,transpassa, e dá outro amarrado no outro lado da cintura... cruzando... senão fica aberto e daí ...já viu ! Ou seja...Já mostrou ! rsrs
Me despedi do Veiga com um cumprimento de surfista ... e entrei.
Nessa sala de recuperaçao e espera , recebei um cobertor,recém higienizado ,empacotado, quentinho , saído da secadora ! Para nos confortar no aguardo.
Esse ERASTO é o cara !
Nós ali sentados éramos todos iguais , ( embora com problemas distintos em questão de gravidade!)
 Todos nós atendidos pelo SUS , como se a sigla quisesse dizer

: S omos    U m   S ó   .

Sem sapatos, nem meias
sem roupas de marca
sem bolsos e sem dinheiro
sem amuletos
sem dentes postiços
sem maquiagens
sem perucas ou lenços.
sem nada.Só o corpo a  procura da cura.

Foram sendo chamados todos os meus colegas um a um, O senhor do meu lado, com um grande problema na orelha esquerda, carcomida , me fez pensar como ia ser resolvido aquele problema num local que é como a nossa canela sem carninha...
A moça do lábio leporino que estava ali para retirar um cateter do rim mas que teria que voltar retirar dois tumores novos.

A senhora carequinha com as unhas negras pela quimioterapia e que embora tenha feito várias sessões , perdido todo o cabelo ainda estava ali para tratar a mama... e a sua maior preocupação não era com ela... era com o marido e o filho que estava la fora a esperá-la..
E o senhor grande, motorista da prefeitura e vendedor de frutas no inverno e sorvete no verão , cheio de  lesões de pele pra tirar...
Enfim, com o meu jeito consegui transformar aquele momento de espera com umas conversas divertidas e e entre elas o bendito camisolão...Cada vez que um levantava ficava a pergunta ... será que vamos ver o bum bum quando ele se levantar?
E era o maior riso, cada vez que o banheiro era usado ou um era chamado pra cirurgia...
.
Entraram todos  e eu fiquei por ultimo ... questão de gravidade,,,
Quando enfim a enfermeira se apresentou e o medico chegou em mim para ver  a lesão , teve dificuldade em encontrar, lhe disse que embora sem sinais, devido a retirada da marca pela biopsia, o bichinho estava ali... por alguns segundos cheguei a pensar que ele ia me dispensar...Mas que nada... o procedimento seria feito.
Enquanto esperava , uma certa senhora, que havia chegado em cadeiras de rodas, com erisipela nas pernas inchadas e curativo no rosto, a mesma que havia sido transferida da cadeira para a maca por cinco enfermeiras não parava de incomodar. Falava alto e por estar sem dentes era difícil o entendimento...Impaciente falava alto ,atrapalhando o desempenho dos trabalhos com os pacientes em recuperação... verificação de soro,  troca de roupas sujas de sangue,e condução de macas.O serviço era interrompido  por suas atitudes.Queria ser atendida logo ! Enfim veio o médico e lhe explicou  que a sua cirurgia havia sido transferida devido a um contratempo deixando a UTI sem vaga.  Vi o quanto é importante  e mais fácil se atender pessoas doentes  com pouco peso, isso com relação à família ou hospital...
 Lá vieram três enfermeiros fortes transportar de novo dona Joaninha para a cadeira de rodas de novo e a levaram...
Pronto ... depois de tudo isso me chamaram.
Subi na mesa de cirurgia, desvesti as cavas do camisolão ,me conectaram pelo dedo da mão e me puseram uma placa gelada na perna .Me puseram um sobre lençol, o cobertor por cima.
Envolveram minha cabeça com tecido quentinho, passaram álcool delicadamente um minha face, me orientaram para não abrir os olhos.
Começou o procedimento.
Dona Cassiana, uma agulhadinha doída... tudo bem?
Uma não ...foram 5... bem doloridas na verdade, mas a do osso do nariz...é braba!
Pronto.. anestesiada.. e eu ao invés de relaxar , me espremia  toda  até que lembrava de relaxar...Foram cortando e contando o que faziam...oque me deixava bem ciente de tudo.
Dois médicos e uma auxiliar , chamada Maria que confessou que havia contaminado a unica pinça necessária ali...Iam cortando e cauterizando  e enxugando o sangue,num entrosamento bem bom...
Conversando sobre família, me perguntando a idade, falando que eu iria ficar igual a Tonia Carrero depois da sutura com pontos de plástica... e eu com a boca feito boca siri, bem fechadinha disse que estava bem, desde que eu não ficasse parecida com Dedé Santana ...srsr
E que a "Maria Pinça"se comportasse.
Perguntei qual era o tamanho do bicho retirado e ele me respondeu que era do tamanho duma larva de fruta , feito uma lagarta..e que por muito pouco não chegou ao músculo do nariz , oque que daria problemas para movimentar o nariz...
E assim foram devagarinho fazendo o bordado...

Agora depois do primeiro curativo, vi hoje o quanto os pontos estão  pertinho do olho...ufa !

Quem diria que aquela coisinha branca que cutuquei, achando que era um cravo, ou um  sebinho, depois de ter cutucado, ia virar  um carcinoma basocelular nodular..dos mais simples mas que com certeza ira me dar muito incomodo mais tarde..

quinta-feira, 7 de junho de 2018

viaduto

Paramos numa borracharia dum posto, pra consertar o pneu que furou bem debaixo dum viaduto na Br de Santa Catarina.Borracharia mais uma daquelas, suja pra caramba, cheia de cachorros magrelos.
Quando o barulho se fez, do furo, estacionamos bem debaixo das vigas do viaduto e enquanto ele trocava o pneu vi que havia uma mulher sentada perto.
Fui ate ela conversar um pouquinho.
Cheguei como sempre chego e depois dum Oi o papo ja começou.
Parecia uma cigana com mil pulseiras, cabelo longo preto com unhas longas, todas enfeitadas.
Perguntei - lhe se esperava alguém, na minha ingenuidade.
E ela tranquilamente me disse: Você sabe , né...eu trabalho aqui...
Respondi, cada um na sua , não é?
Mora por aqui?
Não, sou de Curitiba e estamos indo à Palhoça...
Tenho parentes lá.
Por que não ligaram pra concessionária? Eles viriam na hora , consertar o pneu...
Sem problemas , ele troca rapidinho!
Que bom!
Bom...já que estamos conversando, posso fazer uma pergunta que sempre me intrigou?
Claro , claro que pode...
Você não tem medo de ser vítima de algum maluco? Ou coisa parecida?
Não, filha , são todos meus amigos...
Você não tem marido?
Não...só filhas , elas passam por aqui as vezes, as minhas cunhadas me encontram aqui as vezes quando passam de caminhão.
Então elas sabem?
Sim todos sabem, em casa sou uma pessoa normal!
Poderia pegar carona com uns vizinhos, mas prefiro não misturar as coisas.
Aposto que com eles você não teria problemas, mas com as mulheres deles , já não daria bem certo , né!
Risos...
Uma vez em Curitiba , eu estava na praça Santos Andrades e parei na fila pensando que era do ônibus e era na fila das mulheres ....kkkk
Posso fazer mais uma pergunta?
Claro...
E você , sente prazer , ou é apenas por dinheiro...
As vezes até sinto, você sabe, sou sozinha, então...
Preço?
5O...
As vezes vamos a um motelzinho aqui perto.
Viche...rsrs sabe oque estou pensando? É bem capaz de parar um caminhão e achar que sou nova no pedaço!
( Rimos as duas)
Cassi, Cassi...pronto , o pneu tá colocado, triângulo recolhido.
Tá...vou embora, muitas felicidades pra você...
Pra você também, e se passar por aqui outras vezes, pára pra conversar...
Ok....se cuida!
(O borracheiro me disse, que faz 20 anos que a conhece , ela não falta ao serviço nenhum dia e começa às sete horas da manhã, chova ou faça sol)
Trabalho é trabalho e pessoas são pessoas!

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Fala demorada

Por aqui já ouvi um papo que quando a criança demora falar, a mãe pega uma casquinha de ovo, bem novinha de uma franga , bem novinha que começou botar, enche de água e da pra criança beber...Ela não demora muito e num upa já começa soltar a língua .
Mas essa de hoje, essa foi de rir de doer a barriga!
Eu pra variar no postinho e a demora rolando dando tempo de vários papos, surgiu a dita história de criança que demora falar. A mulher do meu lado ,logo foi dizendo: você sabe né...eu sou irmã da Lurde, aquela que fala muito...aquela que se despede , vai indo e vai falando até sumi na estrada.A senhora é igual ela né...
Pois então, qdo minha filha era pequena, já tinha um ano e meio e nada de falá...A Lurde mandou eu ir na casa dela pra faze uma simpatia. Pegou um pintinho e" pois" a cabecinha dele dentro da boca da minha filha , não é que deu certo! Não demorou ela tava falando de tudo! 
Fala muito ...a minha filha! 
Será que com a senhora não aconteceu a mesma coisa?"vai vê...."que puzeram na sua boca um pintinho e fizeram ele "piá"...
- Nisso, a outra mulher do meu lado já querendo tirar uma onda já começou a aumentar a coisa, que no meu caso não era um pintinho....era bem...maior! Que o dito não tinha colocado só a cabecinha...
O riso foi aumentando até graças... que me chamaram pra vacina!

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Ele

E eu fui visitá-lo ontem pela última vez.
Não que houvesse feito uma promessa de nunca mais pisar naquela casa, não porquê ele houvesse falado algo que me magoasse ou que me sentisse de alguma forma maltratada.
Fui, mas confesso que quis dar uma desculpa dizendo que teria algum compromisso e não ir.
Cheguei  bem à noite,sozinha, cabelos ainda molhados, pingando. De sóbria, só a roupa como pedia o momento.
Em frente à casa, muitas e muitas pessoas se reuniam em pequenos grupos, à luz da lua que estava ao alto.
Entrei, pela varanda,  depois de cumprimentar algumas pessoas que estavam no meu percurso, para o velório.
Olhei para dentro da sala e lá estava ao fundo a viúva à cabeceira do leito onde descansava pra sempre , o meu amigo.
Resignada e triste estava ela...
A sala que sempre se encontrava fechada, naquele momento estava aberta à rua para receber os amigos, filhos, netos e vizinhos de uma longa vida!
Demo- nos as mãos,eu e ela  e assim ficamos.
Chorei, porquê perdi meu amigo ...uma amizade que foi se formando cada vez  que ia visitá- lo para passar nosso tempo.Conversas ricas em detalhes de sua vida que ele me contava com já seus 80 e poucos anos...
Ele sabia ouvir e principalmente se interessava pelos meus assuntos, sempre dando seu  parecer e fazendo comparações , de como era no passado e como poderia ser  e...se não fosse assim.
Como havia feito suas grandes coisas, construção de casas, obras pra igreja, o seu casamento com a Terezinha, suas viagens de caminhão, os cortes de madeira com o irmão, a afeição por eles, chamando-os até hoje pelo diminutivo.
Conversavamos como bons amigos!
Alguns dias atrás, eu havia estado ali, para saber de sua saúde.Não estava bem, estava deitadinho, aquele homem grande! De lado ,sem poder virar-se, no quarto que não era o seu ,por preferir pela presença do sol à tarde!
Conversamos rapidamente e ele depois de chamar- me pelo nome...de repente dormiu.
Nos dias seguintes seu estado agravou-se e ele foi pra UTI. Creio que na cabecinha dele ,ele ainda pensava estar na casa e conversando comigo, pois as enfermeiras chegaram a perguntar quem era Cassiana a quem ele se referia me confundindo com as enfermeiras...Mesmo sabendo do fato, não fui visitá-lo temendo ocupar um espaço que seria familiar, nos poucos minutos de visita na UTI.
Afinal...éramos só amigos! Meu desejo e  intenção era que ele voltasse e que tudo voltasse a ser como era...mas infelizmente as coisas não se encaminharam assim.Ele foi e não voltou...
Fiquei mais um pouco , junto a  família ao seu lado  despedi- me  e fui.
No caminho de volta pra casa, pela estrada escura e vazia, também me sentia vazia ...
Voltando devagar , parecia que eu estava  no seu cortejo!
Foi minha última visita à ele.
Passei pela porteira que havia deixado aberta, desci,fechei, vi a lua no alto , segui o caminho e entrei em casa, com o  peito apertado! e