domingo, 3 de fevereiro de 2019

Toninho

E  ele está internado, sem receber visitas, por ordem médica. E eu que um dia cheguei a pensar  que fosse cuidar dele na velhice, que me preocupava com seu excesso de paieiros, chegando a ser chata... seu excesso de "Xaxixo", seu excesso de coxinhas e refrigerantes no bar, seu gosto estranho por comida com muita gordura, achando que a minha não tinha gosto...
Eu , que sabia e mais ninguém que ele já havia tido um avc.
Que insisti no feitio da dentadura, abandonada logo nos primeiros dias...
Que escutei suas histórias tristes da infância...
Que me indignei  muito com elas...muito serias...
Que tentei saber da clínica psiquiátrica como ele está , sem receber informações...por não ser parente , nem ter credencial...
Eu mesma...hoje me indignei mais um pouco...ao encontrar sua genitora na estrada e a vi, meio que se escondendo entre golas , com o pescoço encolhido , para que eu não a reconhecesse ao passar por ela e assim não pudesse cobrar, entre muitas coisas... por que não fez o acompanhamento do uso ou " não uso " dos seus remédios fortes, que a sua falta o fizeram ...surtar.

Função de mãe é eterna!

Volta

A maçã estava inteirinha, bonita , corada e cheirosa, esperando a primeira mordida da primeira pessoa que iria comprá-la.
 O prato de sopa que estava quente sobre a mesa, esperando a fumaça subir, amornar, para ser dada a primeira colherada na curiosidade de se conhecer o sabor...esperava.
O filme na tv, no aconchego da cama macia, aguardava a pipoca branquinha , chegar ao piruá, e ver o final do filme, num talvez final feliz...
Muitas coisas na vida como essas se fazem de esperas.

E eu?
 Eu , depois de tantos dias e noites , anos também, que prefiro nem contar ,mas muitos...vou agora parar de fazer contas de espera.

Ele , meu filho mais novo com aparência hoje de mais velho por causa do muito sol e vento que lhe judiaram...cabelos clareados naturalmente pela natureza, muitas roupas puidas.
 Está voltando.
Foi com duas rodas e está voltando hoje ,quarta feira... pelos ares, pelas asas de um grande avião.
Hoje à meia noite, chegará...
Melhor que isso: Chegarão!
Ele e sua linda companheira de projetos, planos de futuras aventuras e feitos a dois.
Viva a vida!
Boas vindas!José Guilherme Veiga e Eve Schlosser

Sonho

    Depois de  uma  linda  noite , com a  super lua,veio uma  outra  com  uma  super  chuva! Relâmpagos e alguns  granizos miúdos que  fizeram barulho no  telhado, nos  deixando apreensivos...Não seria  possível que  fossemos  passar  de novo  pelas  mesmas  coisas  ...perdendo  a produção  das  frutas , depois  de um  ano !
Dormi um  sono  profundo , até que  meu  sonho  , me  despertou!
(Eu que  detesto  ouvir  filmes  e  sonhos  contados, estou  aqui  nesse  papel..)
 "Estava no  apartamento  antigo  , lá  da  Doutor  Faivré., mocinha  ainda, me  divertindo com  minha  irmã caçula e  temporona.
A brincadeira  era de  ensiná-la  dar as  primeiras  pedaladas, que  só dava  pra  ser  duas e  atravessar a cozinha  ,até  encostar  na  pia!Ela  não  sabia  frenar . dando com  o  pneu no  armário e  eu  ria ! Ela  também ria  , num  misto de  riso  e  nervoso !
A chave já  estava  na porta, pelo lado de  fora, para  sairmos, e nossa mãe  só  havia  dado  uma  subidinha  pelas  escadas  , no  andar  superior , falar  com  a  vizinha.
A Adriana soltou  a  bicicletinha  no  chão, e eu  corri pro banheiro apurada.Ainda  ouvi  a  mãe  falando, rápido , rápido, que  bagunça que  ficou , heim...O  meu  xixi, saiu devagarzinho,quentinho, quentinho...
Acordei assustada, coração  num tum tum tum  só.Nossa  ... tinha  acontecido !
Rápido, rápido, tinha  que  retirar  o  lençol e  a  capa do  colchão .Mas  como  se  no  meu  lado dormia  um  anjo  , que  não  ronca , não fala dormindo e  nem  faz  essas  coisa  na  cama ? O jeito  foi  fazer  um  enroladinho e  sair  de  fininho, tomar  banho e  trocar  a roupa.
Pronto , banho  tomado, pijama  limpinho,,eu já  podia  dormir  ao lado dele, na  verdade  ao  lado  da  minha  panquequinha  de  coberta .
la


Começo

comeco

....Era uma menininha de nada...,uns cinco anos, se não fosse menos,mas já era decidida quando se tratava de algo que realmente me interessava...Que bom era,sair de perto dos adultos,nessa época...
Nós, reunidos à tarde,depois que um e outro parente ia chegando para o café na casa da vó Durvalina , juntando se aos que já estavam ali.
Sentados numa mesa farta ,entre os "me passa a manteiga por favor",cuecas viradas com açúcar e canela,cuque de banana, se adoçavam os que tinham a boa
ideia de estar ali. Canudinhos de massa de pastel, recheados com maionese sobrada do almoço, fazia os adultos estalarem os olhos e se atracarem em sempre mais um ! As mulheres à mesa falando baixinho de moda, compras de tecidos em metro, aviamentos e costuras . Os homens trocando idéias sobre política e futebol, sobre o que ouviam nos radiozinhos à pilha colados aos ouvidos.
Verdade seja dita, os assuntos deles, continuam os mesmos !
E eu... uma das poucas crianças ali, aproveitando a distração dos grandes , enquanto todos falavam e comiam, deslizava para debaixo da mesa,soltando o corpo mole, devagar,com as bochechas cheias de delícias e saía por entre as pernas das pessoas ,abaixadinha !
As conversas dos adultos nunca interessavam às crianças e "Deus me livre" se abríssemos o bico interferindo nos assuntos !
Não existia essa coisa nova de hoje, dos pais darem mais atenção aos pequenos do que aos grandes,tratando os filhos de "meu príncipe" ou minha princesa" !
Se falássemos alguma coisa fora da hora e jeito, com certeza ouviríamos um grande "sermão" quando chegássemos em casa!
Era melhor, nem tentar !
Melhor mesmo era sair dali ,quietinha e chegar logo no fundo do quintal ,matando o desejo de entrar no " Paiol".
.Cuidando bastante para não sujar a roupa de domingo,que na maioria das vezes era feita em casa pelas mãos da minha mãe. Roupas que lembro que me espetavam por causa dos babados de tule , para dar armação!
Logo na chegada ao Paiol, dois degraus de cimento queimado e uma porta de madeira com trinco de ferro. O quartinho nunca foi trancado, pois não havia nada de valor ali dentro ! Naquela época mais ou menos 1960, eram raros os roubos a fundo de quintal, as portas ficavam sem chaves durante o dia, sendo encostadas somente a noite,por medo de entrada de sapos que povoavam as valetas do bairro.
Logo que entrava, via nas paredes do Paiol, as prateleiras que guardavam há anos, muitas latas de tintas usadas, vidros cheios de pregos, bicicletas desmontadas,janelas sem uso ,teias de aranhas nos cantos e muito pó.
À direita, em frente à janela, por causa da luz, ficava o mais importante para mim...
A velha máquina de costura à pedal
Aquela máquina estava sendo conservada há anos ali... e eu sempre ouvia dizer que era da 'falecida vovó"!
Eu nem sabia quem era a falecida vovó...
Eu nem sabia que ela era a avó da minha mãe...
A avó da minha mãe...A minha bisa ,então !
Depois dos meus olhos "puxados", darem uma olhada em tudo oque estava esquecido ali naquele quartinho,eu estava a sós, enfim, com aquela grande maravilha!
Coraçãozinho batendo forte , em frente à Máquina de Costura da Falecida Vovó!
Com olhos agora,mais abertos do que nunca e o desejo ardente de abrir aquela portinha que eu já conhecia de outros domingos , que arranjava um jeitinho de ir lá... e que fazia um "clecK" delicioso
Faltava agora abrir a portinha onde estava o pedal de ferro escuro próximo ao chão! Depois me enfiar ali dentro, encostar a portinha , me
fechando no escuro só um pouquinho, sem prender os dedos mas só encostando sem dar o estalo.. O medo não podia ficar preso comigo ali
"Deus me livre !
O espaço era muito pequeno pra dois! Ficava ali o tempo certo até acabar o meu ar ...nem respirava
Saía logo em seguida e em pé, ia me deliciar com movimentos de ir e vir no pedal, um pé firme no chão e o outro indo pra frente e pra traz...
Quando depois cansava , faltava por fim, brincar de dar voltas e voltas na roda onde ficava a correia.O pedal daí dançava para baixo e para cima sozinho, num clequec, clequec feito um trem nos trilhos...
Assim Ia brincando com muito cuidado, para um choro não por todo aquele encantamento a perder !
Faltava por fim depois de tudo......o mais gostoso, o mais instigante...
( "a ultima mordida no bolo,é sempre a mais saborosa!)
Me faltava então, só rever oque havia naquele dia, nas três gavetinhas da"Máquina da Falecida Vovó" antes que alguém dessa por minha falta na mesa...
Eu deixava mesmo por último,porque assim tinha mais viva na lembrança tudo, depois que eu fosse embora....Até quem sabe, num outro domingo !
A ansiedade era grande.
E, e se alguém tivesse feito uma faxina ali ?

Jogado fora oque eu adorava ver? Quanta coisa eu queria encontrar...E o medo das gavetas estarem vazias...Era melhor não demorar e abrir logo a primeira, a de cima... E..pra minha alegria ....tudo estava igual ali.
Pecinhas de pequenos consertos sobradas de alguma reforma na máquina
.Molas e parafusinhos, chaves de fenda pequenas parecendo de brinquedo.Toquinhos de giz de costura encardidos pelo uso, dedal,tesourinha enferrujada, tudo com um cheiro bem bom que lembro até hoje, de óleo de máquina antigo e pó.... que permanecia no meu nariz!
Alfinetes com e sem bolinhas e agulhas, impetuosas e enferrujadas, também descansavam ali.
- Na segunda gaveta , coisas que faziam ser "a mais colorida de todas"
Atochadas de pedacinhos de rendas, fitas de todas as cores,sianinhas onduladas, feito ondas do mar! Restos de tecidinhos coloridos de alguma costura antiga.
Carreteis de madeiras claras,com linhas mescladas para bordar à maquina, formavam um arco iris de cores .Iam do branco ao rosa escuro. Do branco ao azul dos mais fortes, sempre do branco aos tons bem coloridos...Dava pra encher a mão com os carreteis!
Os meninos esperavam pacientes eles se esvaziarem ( acho que do mesmo jeito que eu esperava os esmaltes coloridos começarem a secar, para depois ganhar, no salão de beleza da Dona Fita...onde eu ia sempre cortar a franja)( ou mesmo a igual paciência que eu tinha quando acompanhava meu pai à oficina mecânica e ficava esperando o momento certo para pedir ao seu Leônidas umas bolinhas de rolamentos de aço )
Exercícios de paciência !
---Minha mãe vai ficar emocionada de eu ter lembrado da Dona Fita e do Seu Leônidas ...
Quando os carreteis se esvaziavam, com habilidade e jeito , reunidos em dois ou três meninos, eles transformavam os carreteis em" peões de fio" para brincar em
chão liso ! Ficavam por horas lidando com aquilo! ! Era uma diversão muito saudável e não fazia sujeira para as mães reclamarem!
Brincavam, literalmente... horas e horas à fio !
Junto ainda com os carreteis,ficavam as canelinhas , que hoje chamamos de carretilhas, descansavam com voltas e voltas de fios abraçados às suas cinturas,
como carne e osso, ali paradas no tempo...
Por fim , a terceira e ultima gaveta...
Pelo que havia dentro dela, hoje sei que era o lugar onde guardavam as anotações.
Um caderninho cheio de letras que eu não sabia ler e números que também não sabia contar!
Desenhos de modelos de vestidos, medidas de cava ,cintura e busto ,com certeza !
Moldes tirados em papel manteiga que deveriam estar "rançosos " pelo tempo.
Amarradinhos com um fiapo do próprio tecido da costura. Nomes e endereços ...
Coisas que as pessoas que costuraram ali,nunca tiveram coragem de jogar fora em respeito aos seus antigos donos.Conhecer a organização dessas gavetas me trouxeram a lição de que "tudo deve estar no lugar certo e que cada coisa tem sua utilidade e valor!
Como a minha infância foi premiada com altos e baixos financeiros, convivi com o "dar valor às coisas ", "guardar e "reutilizar as coisas".Roupas,utensílios e bens.
Lembro muito bem dos meus pais começarem a vida com duas bicicletas,com duas cadeirinhas, depois uma motocicleta,com side car , depois um jipe e enfim, um carro... Sempre muito polidos e
cuidados ! Nada de herança!
A herança que tento passar é que meus filhos e netos,zelem por aquilo que tem.
Tanto zelei pelos "meus escritos" que durante a vida foram se acumulando em muitas gavetas em muitos lugares que morei..
Viajaram sempre comigo.
Escrevi coisas serias e muitas outras divertidas, situações passadas por mim, coisas que vi e vivi !
Convido-os então a estarem" Abrindo minhas gavetas..