comeco
....Era uma menininha de nada...,uns cinco anos, se não fosse menos,mas já era decidida quando se tratava de algo que realmente me interessava...Que bom era,sair de perto dos adultos,nessa época...
Nós, reunidos à tarde,depois que um e outro parente ia chegando para o café na casa da vó Durvalina , juntando se aos que já estavam ali.
Sentados numa mesa farta ,entre os "me passa a manteiga por favor",cuecas viradas com açúcar e canela,cuque de banana, se adoçavam os que tinham a boa
ideia de estar ali. Canudinhos de massa de pastel, recheados com maionese sobrada do almoço, fazia os adultos estalarem os olhos e se atracarem em sempre mais um ! As mulheres à mesa falando baixinho de moda, compras de tecidos em metro, aviamentos e costuras . Os homens trocando idéias sobre política e futebol, sobre o que ouviam nos radiozinhos à pilha colados aos ouvidos.
Verdade seja dita, os assuntos deles, continuam os mesmos !
E eu... uma das poucas crianças ali, aproveitando a distração dos grandes , enquanto todos falavam e comiam, deslizava para debaixo da mesa,soltando o corpo mole, devagar,com as bochechas cheias de delícias e saía por entre as pernas das pessoas ,abaixadinha !
As conversas dos adultos nunca interessavam às crianças e "Deus me livre" se abríssemos o bico interferindo nos assuntos !
Não existia essa coisa nova de hoje, dos pais darem mais atenção aos pequenos do que aos grandes,tratando os filhos de "meu príncipe" ou minha princesa" !
Se falássemos alguma coisa fora da hora e jeito, com certeza ouviríamos um grande "sermão" quando chegássemos em casa!
Era melhor, nem tentar !
Melhor mesmo era sair dali ,quietinha e chegar logo no fundo do quintal ,matando o desejo de entrar no " Paiol".
.Cuidando bastante para não sujar a roupa de domingo,que na maioria das vezes era feita em casa pelas mãos da minha mãe. Roupas que lembro que me espetavam por causa dos babados de tule , para dar armação!
Logo na chegada ao Paiol, dois degraus de cimento queimado e uma porta de madeira com trinco de ferro. O quartinho nunca foi trancado, pois não havia nada de valor ali dentro ! Naquela época mais ou menos 1960, eram raros os roubos a fundo de quintal, as portas ficavam sem chaves durante o dia, sendo encostadas somente a noite,por medo de entrada de sapos que povoavam as valetas do bairro.
Logo que entrava, via nas paredes do Paiol, as prateleiras que guardavam há anos, muitas latas de tintas usadas, vidros cheios de pregos, bicicletas desmontadas,janelas sem uso ,teias de aranhas nos cantos e muito pó.
À direita, em frente à janela, por causa da luz, ficava o mais importante para mim...
A velha máquina de costura à pedal
Aquela máquina estava sendo conservada há anos ali... e eu sempre ouvia dizer que era da 'falecida vovó"!
Eu nem sabia quem era a falecida vovó...
Eu nem sabia que ela era a avó da minha mãe...
A avó da minha mãe...A minha bisa ,então !
Depois dos meus olhos "puxados", darem uma olhada em tudo oque estava esquecido ali naquele quartinho,eu estava a sós, enfim, com aquela grande maravilha!
Coraçãozinho batendo forte , em frente à Máquina de Costura da Falecida Vovó!
Com olhos agora,mais abertos do que nunca e o desejo ardente de abrir aquela portinha que eu já conhecia de outros domingos , que arranjava um jeitinho de ir lá... e que fazia um "clecK" delicioso
Faltava agora abrir a portinha onde estava o pedal de ferro escuro próximo ao chão! Depois me enfiar ali dentro, encostar a portinha , me
fechando no escuro só um pouquinho, sem prender os dedos mas só encostando sem dar o estalo.. O medo não podia ficar preso comigo ali
"Deus me livre !
O espaço era muito pequeno pra dois! Ficava ali o tempo certo até acabar o meu ar ...nem respirava
Saía logo em seguida e em pé, ia me deliciar com movimentos de ir e vir no pedal, um pé firme no chão e o outro indo pra frente e pra traz...
Quando depois cansava , faltava por fim, brincar de dar voltas e voltas na roda onde ficava a correia.O pedal daí dançava para baixo e para cima sozinho, num clequec, clequec feito um trem nos trilhos...
Assim Ia brincando com muito cuidado, para um choro não por todo aquele encantamento a perder !
Faltava por fim depois de tudo......o mais gostoso, o mais instigante...
( "a ultima mordida no bolo,é sempre a mais saborosa!)
Me faltava então, só rever oque havia naquele dia, nas três gavetinhas da"Máquina da Falecida Vovó" antes que alguém dessa por minha falta na mesa...
Eu deixava mesmo por último,porque assim tinha mais viva na lembrança tudo, depois que eu fosse embora....Até quem sabe, num outro domingo !
A ansiedade era grande.
E, e se alguém tivesse feito uma faxina ali ?
Jogado fora oque eu adorava ver? Quanta coisa eu queria encontrar...E o medo das gavetas estarem vazias...Era melhor não demorar e abrir logo a primeira, a de cima... E..pra minha alegria ....tudo estava igual ali.
Pecinhas de pequenos consertos sobradas de alguma reforma na máquina
.Molas e parafusinhos, chaves de fenda pequenas parecendo de brinquedo.Toquinhos de giz de costura encardidos pelo uso, dedal,tesourinha enferrujada, tudo com um cheiro bem bom que lembro até hoje, de óleo de máquina antigo e pó.... que permanecia no meu nariz!
Alfinetes com e sem bolinhas e agulhas, impetuosas e enferrujadas, também descansavam ali.
- Na segunda gaveta , coisas que faziam ser "a mais colorida de todas"
Atochadas de pedacinhos de rendas, fitas de todas as cores,sianinhas onduladas, feito ondas do mar! Restos de tecidinhos coloridos de alguma costura antiga.
Carreteis de madeiras claras,com linhas mescladas para bordar à maquina, formavam um arco iris de cores .Iam do branco ao rosa escuro. Do branco ao azul dos mais fortes, sempre do branco aos tons bem coloridos...Dava pra encher a mão com os carreteis!
Os meninos esperavam pacientes eles se esvaziarem ( acho que do mesmo jeito que eu esperava os esmaltes coloridos começarem a secar, para depois ganhar, no salão de beleza da Dona Fita...onde eu ia sempre cortar a franja)( ou mesmo a igual paciência que eu tinha quando acompanhava meu pai à oficina mecânica e ficava esperando o momento certo para pedir ao seu Leônidas umas bolinhas de rolamentos de aço )
Exercícios de paciência !
---Minha mãe vai ficar emocionada de eu ter lembrado da Dona Fita e do Seu Leônidas ...
Quando os carreteis se esvaziavam, com habilidade e jeito , reunidos em dois ou três meninos, eles transformavam os carreteis em" peões de fio" para brincar em
chão liso ! Ficavam por horas lidando com aquilo! ! Era uma diversão muito saudável e não fazia sujeira para as mães reclamarem!
Brincavam, literalmente... horas e horas à fio !
Junto ainda com os carreteis,ficavam as canelinhas , que hoje chamamos de carretilhas, descansavam com voltas e voltas de fios abraçados às suas cinturas,
como carne e osso, ali paradas no tempo...
Por fim , a terceira e ultima gaveta...
Pelo que havia dentro dela, hoje sei que era o lugar onde guardavam as anotações.
Um caderninho cheio de letras que eu não sabia ler e números que também não sabia contar!
Desenhos de modelos de vestidos, medidas de cava ,cintura e busto ,com certeza !
Moldes tirados em papel manteiga que deveriam estar "rançosos " pelo tempo.
Amarradinhos com um fiapo do próprio tecido da costura. Nomes e endereços ...
Coisas que as pessoas que costuraram ali,nunca tiveram coragem de jogar fora em respeito aos seus antigos donos.Conhecer a organização dessas gavetas me trouxeram a lição de que "tudo deve estar no lugar certo e que cada coisa tem sua utilidade e valor!
Como a minha infância foi premiada com altos e baixos financeiros, convivi com o "dar valor às coisas ", "guardar e "reutilizar as coisas".Roupas,utensílios e bens.
Lembro muito bem dos meus pais começarem a vida com duas bicicletas,com duas cadeirinhas, depois uma motocicleta,com side car , depois um jipe e enfim, um carro... Sempre muito polidos e
cuidados ! Nada de herança!
A herança que tento passar é que meus filhos e netos,zelem por aquilo que tem.
Tanto zelei pelos "meus escritos" que durante a vida foram se acumulando em muitas gavetas em muitos lugares que morei..
Viajaram sempre comigo.
Escrevi coisas serias e muitas outras divertidas, situações passadas por mim, coisas que vi e vivi !
Convido-os então a estarem" Abrindo minhas gavetas..
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